quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Marquise

Os escritos das ruas são coisas particulares e muito interessantes. Não estou falando de autedores (aportuguesando. ..), cartazes ou placas de estabelecimentos, embora estas últimas por si só sejam particularmente lúdicas e talvez merecessem uma crônica só para elas. Na verdade me refiro a coisas mais populares e democráticas espalhadas por quase todos os prédios da cidade: as pichações.

Alguém conhece modo mais prático e eficiente de atingir milhares de pessoas sem custos publicitários? Acho que não existe. Através desse meio de comunicação, provérbios, contestações, manifestações contra qualquer pessoa podem ser feitas sem conseqüências ou repressões judiciais *.

Dia desses estava voltando para casa de ônibus quando minha atenção foi capturada por um dizer muito interessante na fachada de um prédio ao lado do Elevado Paulo de Frontin:

– O que você faria se não tivesse medo?

Este é um exercício interessante de fazer. Não subir na marquise do prédio para escrever isso, mas sim pensar no que faríamos se não tivéssemos medos, principalmente porque não fazemos isso com freqüência.

– Você tem medo de quê? – Essa deveria ser a primeira pergunta, pois devemos conhecer primeiro o nosso oponente antes de tentar descobrir como seríamos sem que ele existisse.

Aqui chegamos a um ponto bastante pessoal e amplo. Muitas pessoas responderiam que têm medo do Lula, Garotinho,.. ., outros diriam que têm medo da Mineração Rio Pomba Cataguases Ltda.,..., outros diriam de assaltos, traficantes; um agricultor poderia ter medo de chuvas em demasia para não perder a colheita, ou falta de chuvas para não perder o que fora plantado.

Já eu tenho um medo simples de lutar contra, mas trabalhoso para que ele não volte a me atormentar: tenho medo de ser inútil! Isto mesmo. Me preocupo com a utilidade de tudo o que faço, com o sentido das coisas feitas por mim e pelas pessoas que me cercam. Das preocupações referentes ao trabalho, obviamente me vejo de frente com as questões ambientais, embora não esteja preocupado em manter-nos aqui por muito tempo e sim fazer com que as outras espécies resistam a nós e continuem aqui depois que não estivermos mais.

Mais ai, a conversa cai para o objetivo de vida de cada um. E não vou discutir isso aqui. O meu objetivo é produzir; o dos outros não dá nunca direito pra saber, embora ache que o dos evangélicos da Renascer em Cristo seja de ser otário, bocó e trouxa.

Acho que no fim das contas se não tivesse medo assistiria todos os dias a seção da tarde depois da minha sesta...

E você?!

Abs.

* é provável que todos de nós já tenhamos vistos alguns exemplos mais conhecidos da fúria publicitária das pichações, como os dizeres: “XUXA É PUTA!” e o famoso “QUÉRCIA VEM AÍ”, ou ainda o polivalente “SÓ JESUS EXPULSA DEMÔNIOS DAS PESSOAS!” (que com umas duas vírgulas e um ponto pode ser escrito e lido de uma infinidade de formas, dependendo da interpretação do autor e do leitor).

(escrito dia 18-01-2007)

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