Recentemente, dia 27-09-09, saiu na Folha de São Paulo esse artigo muito bom de Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo":
"A primeira causa
O propósito da ciência não é responder a todas as perguntas; sua missão é outra
Hoje, retorno a uma questão que parece boba, de tão simples. Mas talvez seja a mais complexa que podemos tentar responder. Tanto que, no meu livro "A Dança do Universo", chamei-a de "A Pergunta". Aí vai: como tudo começou?
O que complica as coisas é que pensamos sobre tudo como um encadeamento simples de causa e efeito: cada efeito tem uma causa que o precede.
Quando vemos uma bola de futebol voando, é porque alguém a chutou; se um carro passa na rua, é porque alguém está dirigindo; se a planta cresce, é porque consegue extrair nutrientes do solo e usar a luz solar como fonte de energia; se o Sol brilha, é porque em seu centro hidrogênio está sendo fundido em hélio, liberando quantidades enormes de energia; se o Sol existe, é porque uma nuvem de hidrogênio entrou em colapso há cerca de 4,6 bilhões de anos, atraída pela própria gravidade...
Se continuarmos nessa linha, terminamos, paradoxalmente, no começo de tudo, a origem do Universo. Se o Universo existe, "algo" o fez existir.
A primeira causa é o impulso inicial da criação. Assim ela tem sido vista desde que religiões começaram a tentar explicar o enigma da origem de tudo. No caso da religião, a estratégia funcionou bem: dado que deuses são entidades sobrenaturais, eles não vivem no tempo, tendo uma existência atemporal, eterna. Assim sendo, regras de causa e efeito, ou mesmo a mera aplicação do bom senso, não valem para divindades.
Uma vez que se aceita que algo pode existir fora do tempo e pode ter poderes absolutos que transcendem as leis da natureza, tudo é possível. Até a criação a partir do nada. No Gênese, Deus criou a luz e separou as águas da terra através do verbo. Segundo Santo Agostinho, que muito se preocupou com esse assunto, o tempo e o espaço surgiram com o mundo. Antes da criação, não havia o "antes", pois o tempo não existia. Outras narrativas de criação do mundo resolvem a questão da primeira causa de forma semelhante, postulando a existência de entidades divinas e, portanto, alheias aos vínculos temporais que tanto nos limitam.
E a ciência? Será que é possível resolver a questão da primeira causa de modo científico? Esse é um debate ferrenho que, infelizmente, entrava o progresso cultural da humanidade. Remete-nos a "guerras" inúteis contrapondo ciência e religião, como se a ciência tivesse como função substituir a fé religiosa, uma grande distorção.
Se as pessoas acreditam que a ciência é capaz de responder a todas as perguntas, incluindo a questão da primeira causa, elas se sentem justamente ameaçadas: parece que a ciência tem como missão "roubar" Deus das pessoas. De forma alguma: ao contrário do que muitos dizem, não é essa a missão da ciência. A ciência não se propõe a responder a todas as perguntas. E por um motivo simples: nós nem sabemos que perguntas são essas. Dado que jamais teremos um conhecimento completo da realidade, jamais poderemos construir uma narrativa científica completa.
Sempre existirão questões não perguntadas e não respondidas; e mesmo questões que nada têm a ver com a ciência. A escolha do que fazemos com essa nossa ignorância perene é pessoal: existem aqueles que preferem optar por ter fé em entidades sobrenaturais e existem aqueles que, como eu, preferem aceitar a simplicidade do não-saber. Não ter todas as respostas é a pré-condição para o nosso crescimento. Nesse sentido, mesmo se a ciência não resolver o enigma da primeira causa -e existem obstáculos complicados que ficam para outro dia-, prefiro continuar tentando e aceitar que, por ser humano, minha visão de mundo tem limites."
O prof. Marcelo não é tão radical no pensamento quanto eu, mas chegou a beliscar o assunto sem falar diretamente: o que poderíamos esperar de um mundo sem ciência, comandado puramente (porque parcialmente já é) pelos religiosos? Estaríamos na idade média ou pior, até hoje.
Precisamos de educação e não de religião, deuses ou qualquer fábula dessas para guiar nossas vidas. Se o desejo de todos é por histórias que alegram a mente, existem muitas interessantes escritas por Walt Disney, Tolken, dentre muitos outros...
Para continuar pensando...
Os mundos descritos, por exemplo, por Tolken são no mínimo absurdos no quesito realidade não é verdade?
"O Sr. dos Anéis" poderia ser resumido assim: um povo anão de pé grande e peludo, árvores falantes, orks, elfos com poderes místicos, um olho que vive numa chama e que quer dominar o mundo, magos cinzas e brancos... e o mais louco, um anel que tem vontade própria, que corrompe a todos, menos um anão de pé peludo que faz bolsas.
Para salvar o mundo e restaurar a paz o anão de pé peludo que faz bolsas tem que andar durante um ano, em companhia de um outro anão de pé peludo gordinho e um tanto quanto apaixonado pelo primeiro anão, guiados por uma criatura careca e pelada (que também era um anão de pé peludo) e jogar o anel dentro de um vulcão, quase inalcansável, no outro lado do mundo, o único possuidor de uma lava especial que será capaz de destruir o anel. Ufa!
Agora por que isso tudo? O anel que a todos corrompe é adorado e querido por todos porque é ele que dará o poder que o olho da chama necessita para subjugar todos os outros povos de todas as terras, pra depois viver num mundo sem graça que não terá mais nada para dominar. Parece meio sem propósito não é? Mas é uma história. Todos sabem que é mentira. É absurda, mas é para divertir, então está valendo.
Agora, vejam se encontram qualquer semelhança com questões fora da realidade.
Um homem nasce de uma mulher virgem. Ele acha que é filho de um ser dos céus, acredita ter sido enviado por ele para passar seus ensinamentos (dos quais nunca lembrou, caíram escritos do céu em uma pedra). Ele protesta contra os opressores da época e é morto em uma cruz, fica 3 dias morto e enterrado e depois volta a vida, passa um tempo 're-vivo' e depois vai para os céus.
Depois de ir para o céu, esse homem sem pai, encontra seu "Pai" e se torna um só com ele e um outro sujeito, que o colocou na barriga da sua mãe virgem, mas que não é seu pai. Se você murmurar coisas em sua cabeça, o homem sem pai e seu "pai" (que também é ele) ouvirá seus pensamentos e pode puní-lo. Mas disso você nunca fugirá, você nunca conseguirá parar de ser punido, porque você é um pecador desde que nasceu. Homem sem pai estranho esse que só pune os coitados dos outros homens com pais. Ele pode ouvir o pensamento de todos no mundo.
A mãe virgem do homem sem pai nunca morreu, mas foi para o céu com corpo e tudo (no mínimo, ela deve ter resolvido o problema de Santos Dumont muito antes,... ).
Pão e vinho se abençoados por outro homem, de saia, (que tem pais) transformam-se no corpo e sangue do homem sem pai de mãe virgem...
O que é mais absurdo?
As duas histórias são completamente absurdas. Qual a diferença então entre elas?
A segunda foi fortemente imposta às pessoas por 2 mil anos sob pena de morte aos que descordavam. E a primeira? Ah, essa foi escrita não faz nem 100 anos...
De qualquer forma, não quero convencer ninguém disso, até porque não vou a feiras de gibis ou similares, tentar convencer os marmanjos que é uma besteira se fantasiar dos seus heróis de quadrinhos preferidos.
O que é importante, e que o prof. no texto menciona, é a educação e não explicações fantasiosas, fábulas e histórias morais (ponto extremamente discutível) que explicam (ou tentam explicar) o mundo.
Com educação você aprende a viver bem, ser bom, ter valores morais ótimos e tudo mais, sem essa necessidades bobas de explicações fantasiosas.
Nunca saberemos tudo, a ciência nunca explicará tudo, muito menos os fantasiosos deuses...
Abraços.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)