quinta-feira, 21 de maio de 2009

Bichinho bonito

Recentemente foi noticiado em diversos meios de veiculação da informação que uma aluna do terceiro período do curso de biologia da UFRJ tinha ganhado na justiça uma ação que a dispensava de qualquer aula prática “ou de quaisquer outras atividades que envolvam uso de animais para a finalidade de experimentação” durante o seu curso.
A requerente alega incompatibilidade com sua “liberdade de convicção filosófica”. Me pergunto: qual convicção é essa?

As pessoas da cidade estão cada vez mais se distanciando da vida normal, que envolve morte, dor e sofrimento de muitos, senão de todos em algum momento. Estão se fechando em uma bolha bactericida e idealista, e completamente equivocada, onde um famoso ditado popular parece ser mentalizado como um verdadeiro mantra:

O que os olhos não veem o coração não sente.

A noção de que os animais podem sofrer e sofrem me parece relacionada com os próprios medos e sofrimentos pessoais dessas pessoas. Talvez o medo do sofrimento e da dor cause esse sentimento de transferir seus pensamentos e seu temor para os outros seres. É como humanizar aquilo que não é humano, distorcer e atribuir sua visão de mundo a outros seres que não possuem seus “olhos”. Essas pessoas então advogam a favor do “Direito dos Animais”. Ora, novamente estamos atribuindo a seres não participantes da sociedade um atributo humano, social e democrata (se é que cabe esse termo aqui). Não é nem preciso discorrer extensamente sobre o fato disso ser novamente um equivoco.

Os ‘não-humanos’ não têm ou deveriam ter direitos se não têm deveres. Mesmo assim, isso poderia ser interpretado como um ato de barbárie meu, um retorno aos anos medievais, um engessamento de meu raciocínio. Poderia também ser interpretado como um engrandecimento desproporcional dos nossos direitos (humanos), como também animais, perante os outros. Poderíamos usá-los para qualquer fim sem controle ou regulamentação? Apenas de forma intuitiva, usando meu resquício instinto primata da savana, eu diria: Porque não? Entretanto isso me levaria a uma discussão sobre o sentido ou a validade da vida, sobre a qual tenho clareza que minha opinião é completamente distinta dos demais habitantes da sociedade em que vivo.

Retornando a temática principal, sou a favor de controle e regulamentação no uso e nas práticas empregadas em pesquisas científicas com animais. A própria ciência exige rigor e metodismo na hora de proceder em um estudo. Porque não controlar, padronizar e ditar regras para o uso dos animais? Além disso, a tônica da ciência também é de mostrar as informações, receber críticas e melhorar sempre. Nesse sentido, não haveria também razão para não discutir ou regulamentar questões relacionadas. O que não pode haver é a crítica vazia. A que nomeio isso? Àquelas críticas que apenas nos acusam de estarmos errados, mas não ajudam em nada no desenvolvimento, na melhora ou solução do que estamos fazendo ou propondo. Isso me parece sempre ser o caso das “sociedades protetoras, acolhedoras, ou qualquer outra coisa, dos animais indefesos”. “Métodos alternativos” sempre são citados, sem que esse quase bordão seja exemplificado realmente. Parece-me que estão sempre preocupados em reclamar porque “acham um absurdo tais e tais atos”, mas não param para desenvolver uma forma realmente alternativa para mudar o ato de que tanto reclamam. Esse tipo de crítica, porém, não ajuda em nada a ciência ou qualquer outra pessoa em qualquer outra situação.

Não sei se a jovem que entrou com a ação, patrocinada por um advogado ativista da ‘causa’, participa de alguma ONG ou é afiliada a alguma das sociedades protetoras de qualquer animal, mas é claro que ela parece estar preocupada em “salvar os bichinhos bonitinhos”, ou os ‘fofídeos’, como são apelidados. É interessante notar que todos esses animais que deveriam ser salvos só vivem em função de nossa própria sobrevivência. Todos os animais que comemos são criados apenas para isso. Não vivem mais livres na natureza, e na maioria dos casos nem poderiam, pois, na maioria dos casos, são provenientes de outras regiões do planeta e virariam casos de invasão biológica.

Concordo que a situação atual dessas espécies, de total ‘dependência’ do homem (se é que podemos falar nisso, como se fosse consciente por parte deles), é uma deturpação do que elas foram no passado. Com o passar dos anos o homem mudou o destino delas, e retirou sua liberdade em benefício próprio. Esse “crime” já prescreveu, e nem adianta reclamar disso. Também não adianta advogar a favor do ser “natural de todo ser” e que “todos os seres mudam seu ambiente e influenciam os outros seres que com eles convivem”. Tudo isso é fato, mas não mudará nada nessa discussão. O importante disso, ou o que deveria ser pensado, feito, ou advogado a favor seria da correta manutenção ou reintrodução dessas espécies em seu ambiente natural. Talvez fosse uma tentativa de restabelecer o que deturpamos no passado, se é que tomamos para nós a culpa desse “crime”.

Não consigo encontrar razões ou respostas coerentes para o seguinte:
Porque as plantas podem ser mortas e comidas e os animais não? Porque não existe uma “Sociedade Protetora das Plantas” com força política? Quais “direitos” os animais possuem que elas nem sonham em possuir?

Lutar para que as pessoas não comam o que criam é no mínimo, me desculpem a expressão, estúpido e infantil. Parece o mesmo argumento dos chamados “verdes” que querem “salvar o planeta”. O planeta não precisa ser salvo porque ele durará muito mais que nossa espécie sobre ele. Nós é que precisamos pensar e repensar sempre a nossa ocupação nele, pois dele dependemos para que o nosso tempo aqui não seja estupidamente interrompido por nossa própria ignorância. Os animais que são comidos não sabem que nascem para serem comidos. Nenhum deles teme morrer ou está preocupado conscientemente com a sua espécie. Essas são questões e medos nossos. Eles simplesmente vivem.

Além disso, ainda há incoerência grandiosa e inerente de todos os amantes dos animais: eles são mamíferos e, por isso, defendem majoritariamente os bichinhos mais bonitos, os próprios mamíferos. Não há como ser verdadeiramente amante dos animais e praticante estritamente ‘socialmente correto’. Somos responsáveis pela morte de milhares de animais todos os dias. Esses animais devem ser controlados para que nossa vida social em uma cidade com milhões de pessoas seja possível e que não existam epidemias frequentes entre nós. Um exemplo bem simples: ratos, baratas e mosquitos. A grande maioria das pessoas cresce e é educada a ter real pavor das duas primeiras criaturas e o governo faz campanha para que todos aprendam e pratiquem a chacina das larvas e adultos de mosquitos (principalmente os vetores da dengue). Eu realmente gostaria que alguma das filiações a favor dos animais fosse a favor dessas criaturas, rechaçadas e mortas sempre que possível por todos nós. Não acho errado que os matemos, porque são problema de saúde pública, e até o momento não existe controle mais eficaz que esse. Duvido que alguém se preocupe em matar uma barata.
Sem falar na indústria de cosméticos, farmacêutica, no desenvolvimento de vacinas, a engenharia genética e tudo que a ciência e a medicina conquistaram até hoje para que vivamos dentro da bolha bactericida, cresçamos distante das doenças e vivamos incríveis 80 anos em média. Concluindo, a luta a favor dos animais é arbitrária e focada em algo desimportante. Talvez fosse mais construtivo realocar toda essa força de vontade de agir em prol de reflorestamentos, da manutenção dos biomas nacionais, da educação e saúde para que nossa população cresça menos e precise que menos animais bonitinhos sejam mortos para alimentar nossa doentia explosão populacional.

Vamos fazer um churrasco?

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